CAIXÃO LACRADO – Mortes de vítimas com suspeita de coronavírus: dados que não entram para as estatísticas

Tem aumentado não só o número de prováveis portadores da Covid-19 que faleceram sem a confirmação dos exames, mas também daqueles que, mesmo apresentando os sintomas da doença, não conseguiram testar

Foto: Ulisses Campbell

O Ministério da Saúde tem divulgado diariamente os números do novo coronavírus no Brasil. Nesse domingo (29) informou os seguintes dados: 136 mortes, 4.256 casos confirmados, taxa de letalidade de 3,2%, o estado de São Paulo é o local com maior registro (1.451) e Rio de Janeiro ocupa a segunda posição (600). No entanto, números que não entram para essa estatística são das pessoas que morrem com os sintomas da Covid-19, ou com algum tipo de problema respiratório, que não chegaram a receber seus resultados de exames e aqueles que nem sequer conseguiram fazer o teste.

Dentre as medidas tomadas para evitar a propagação do vírus estão inclusas regras rigorosas para velórios. O Ministério da Saúde preparou um guia de como deve ser feito o manejo de corpos das vítimas do novo coronavírus ou de pessoas que vierem a falecer com suspeita da doença. As recomendações devem ser seguidas pelas funerárias, equipes de saúde dos hospitais e familiares dos falecidos.

O material explica que os corpos podem ser cremados ou enterrados, mas recomenda que velórios em locais fechados sejam evitados. A orientação é para que os cadáveres sejam velados com caixões lacrados, em locais ventilados e abertos, com, no máximo, dez pessoas, sendo respeitada a distância de dois metros entre cada um. Indivíduos que estão no grupo de risco não devem participar e a presença de pessoas com sintomas respiratórios deve ser evitada.

Acontece que esse procedimento tem sido cada vez mais comum e em números superiores aos que são notificados e divulgados no país. Em São Paulo, na manhã da última quarta-feira (25), foram contabilizados 19 enterros dessa forma apenas no Cemitério Vila Formosa, o maior da América Latina, na Zona Leste paulista. No mesmo dia, os informes epidemiológicos apontavam 12 novas mortes no país inteiro, sendo oito em SP. Tal discrepância vem da subnotificação, ou seja, quando algo é notificado menos do que o esperado ou devido, gerando um índice abaixo da realidade.

Um estudo realizado pela Escola de Londres de Higiene e Medicina Tropical (London School of Hygiene and Tropical Medicine), publicado no dia 22 de março, estima que nove em cada dez casos de Covid-19 não são detectados no Brasil. Conhecer os números da doença é essencial para o combate à pandemia, a fim de que sejam criadas estratégias de prevenção. No entanto, a subnotificação impede a noção exata dos casos e é isso que está acontecendo em larga dimensão no país.

O médico epidemiologista e professor da Universidade Federal do Maranhão, Antônio Augusto Moura da Silva, explica que a demora dos resultados dos casos suspeitos de coronavírus faz com que a quantidade identificada esteja atrasada em relação à realidade. “As pessoas estão morrendo nos hospitais sem diagnósticos. Temos algumas mortes diagnosticadas como suspeitas, mas você não tem a confirmação do óbito”, destacou. Tomando como base os dados do último boletim do Ministério da Saúde, se há 4.256 casos confirmados, é possível estimar que 38.690 pessoas estão infectadas pelo vírus, das quais 34.434 não foram identificadas.

Fila de testes

O principal problema para tantos casos sem solução é a escassez de testes no Brasil. Por essa razão, estão sendo submetidos a exames apenas pacientes que tenham tido contato com pessoas infectadas e que apresentam sintomas graves da doença, como dificuldade para respirar – a chamada Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Mas uma pessoa que chega a essa situação, se não receber o tratamento adequado, pode vir a falecer em poucos dias, o que contribui para a incerteza dos números.

No país, a quantidade de pacientes hospitalizados com SRAG está em crescimento exponencial desde fevereiro, de acordo com levantamento feito pelo sistema InfoGripe, da Fiocruz. Na semana em que o primeiro caso de coronavírus foi identificado oficialmente no Brasil, em 25 de fevereiro, havia cerca de 660 pessoas internadas com síndrome respiratória. Entre os dias 15 e 21 de março, foram estimados cerca de 2.250 casos de pessoas internadas com sintomas de uma síndrome gripal forte, incluindo a dificuldade de respirar. No mesmo período do ano passado, por exemplo, houve 934 casos registrados no Brasil.

Diante dessa demanda, os laboratórios de referência para exames de contraprova não estão dando conta. Em SP, mais de 4 mil exames estão à espera de resultados, que podem levar de seis a dez dias, ou mais, para ficarem prontos. Em Alagoas, mais de 200 amostras estão na fila para serem testadas.

Mortes com causas incertas

No interior paulista, na quarta-feira (25) haviam sido notificadas pelas prefeituras 26 mortes suspeitas de coronavírus, mas nenhuma tinha recebido a confirmação oficial no mesmo dia. Como quase sempre as internações se dão com o paciente em estado grave, na maioria dos casos as coletas das amostras são feitas no dia do óbito ou após a morte. E mesmo nessas situações inconclusas, as vítimas são enterradas rapidamente, sem velório, em caixões fechados.

Em Maceió, um idoso de 63 anos morreu na segunda-feira passada (23) com suspeita da doença, seu resultado não havia ficado pronto a tempo. No atestado de óbito constou Covid-19 para que fossem tomadas as medidas de precaução no enterro. Dois dias depois foi confirmado que não se tratava de coronavírus, mas a dor da partida repleta de incerteza e sem despedida foi inevitável. Nesse domingo (29), faleceu um senhor de 80 anos em São Luís do Quitunde, interior alagoano, também um caso provável e inconcluso da doença. Os testes não têm ficado prontos a tempo de se oferecer um tratamento adequado ao paciente.

Uma moradora de São Vicente-SP, Cleide Renata Marques, de 43 anos, morreu após ficar dez dias internada. De acordo com a filha, Bruna Marques, como o quadro era de pneumonia aguda e complicações respiratórias, houve suspeita de coronavírus, mas as amostras só foram colhidas depois que ela morreu. Após sepultamento às pressas, a família entrou em isolamento e ainda espera o resultado do exame.

Em Belo Horizonte-MG, uma investigação feita pelo governo mineiro no último fim de semana aponta que, em 48 horas, 41 cadáveres chegaram a uma funerária da cidade com laudos indicando “insuficiência respiratória aguda, pneumonia e Covid-19”, de acordo com o boletim de ocorrência da Polícia Militar. Entretanto, o estado ainda não confirmou nenhuma morte por coronavírus.

No dia 22 de março, a PM recebeu uma denúncia anônima sobre a existência de corpos acumulados em uma funerária da capital mineira. Na abordagem ao gerente da funerária, foi constatado que, entre os dias 20 e 22 de março, haviam chegado ao local 73 cadáveres com laudos semelhantes: pneumonia ou insuficiência respiratória como causa da morte. Nem todos os falecidos tiveram ou terão testes realizados e seus familiares nunca irão ter certeza do motivo do óbito.

Nas redes sociais, internautas divulgam relatos de suas perdas, repentinas, sem despedida, sem respostas. Em alguns deles, os familiares destacam que constava na certidão de óbito do parente pneumonia ou insuficiência respiratória como causa da morte. Todos enterrados seguindo os protocolos de prováveis casos de Covid-19, no entanto, essas pessoas, provavelmente, não entrarão para as estatísticas da doença.

Foto: Divulgação Twitter
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